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Wicca Gardneriana e Magia Popular Americana

RAÍZES DA NOSSA RELIGIÃO I
Por: Merlyn

Quanto Gerald Gardner escondeu ou maquiou na Wicca que ele apresentou ao público? Muitos estudiosos Pagãos incluindo Isaac Bonewits, James W. Baker, e Aidan Kelly, afirmam que a Wicca de Gardner é amplamente baseada em práticas criadas por ele ou copiadas da tradição Ocidental de magia cerimonial dos séculos XIX e XX.

Em contraste à Wicca Gardneriana, remanescentes de uma autêntica magia popular (folk magic) sobrevivem no século XX. Esta magia popular, cujos praticantes foram Cristãos por séculos, podem ser os verdadeiros remanescentes sobreviventes das antigas religiões Européias. Neste artigo, descreverei o que é sabido sobre as origens da Wicca Gardneriana, e então descreverei duas tradições mágicas populares Americanas, A Southern Appalachian magic, e a Pennsylvania Dutch hexcraft ou "pow-wow."

Wicca Gardneriana
gardner

O renascimento da bruxaria moderna pode ser largamente atribuída a publicação do livro de não-ficção de Gardner Witchcraft Today (Bruxaria Hoje) em 1954. A anulação da ultima lei inglesa contra bruxaria em 1951 tornou possível para Gardner, um funcionário público aposentado com uma longa carreira no leste, divulgar abertamente sua religião “bruxa”.

Witchcraft Today descrevia uma religião pré-cristã sobrevivente que celebrava as mudanças sazonais com Sabbats e os ciclos lunares com Esbats. O modelo de coven Gardneriano consistia de treze pessoas que trabalhavam juntos nus (“skyclad” no original) em rituais bastante elaborados. A Alta Sacerdotisa e o Alto Sacerdote participavam d’O Grande Rito” de sexo ritual pelo menos de forma privada, quando não em eventos do coven. Gardner chamou esta religião “Wica”. Mais tarde outro “c” foi adicionado à Wica para formar a palavra Wicca, comumente utilizada nos dias de hoje. Wicca é a palavra anglo-saxã para um bruxo macho de acordo com Baker, que aponta que este termo esteve fora de uso durante séculos antes de Gardner adotá-lo.

Nos treze anos que se seguiram após a morte de Gardner em 1964, Wicca teve um crescimento espantoso. Esta religião obviamente preencheu uma necessidade na vida de pessoas que buscavam espiritualidade mas que rejeitavam o patriarcalismo e as alternativas anti-sexuais.

Wicca, ou A Arte, é o caminho mais seguido pelos membros da comunidade neo-Pagã, atualmente estimada em 500.000 por Aidan Kelly, que acredita que Wiccans devem saber distinguir entre a “mitologia” da Wicca Gardneriana e sua verdadeira história.

A fonte de informação de Gardner sobre Wicca veio, segundo ele, do coven de New Forest na Inglaterra onde ele foi iniciado como witch em 1939 pela “Velha Dorothy” Clutterbuck (“Old Dorothy”, no original). Ele também traçou as raízes do coven de New Forest até antes do cristianismo, e afirmou que um Livro de Sombras (“Book of Shadows” no original) era a fonte de seus antigos rituais.

Entretanto, começando com a vida de Gardner e continuando até hoje, muitos críticos persistentes desafiaram sua afirmação de que a Wicca era uma antiga religião sobrevivente. Seus críticos primeiramente apontam o fato de que nenhuma pesquisa independente validou a existência da Wicca. Baker, por exemplo, aponta que Gardner foi membro da Sociedade de Folclore da Inglaterra, mas membros desta sociedade, entrevistados após a sua morte, disseram nunca Ter ouvido falar do secto Wicca que Gardner afirmara ter descoberto.

As Quatro Críticas

Agora irei examinar em detalhes quatro das críticas levantadas à Wicca por aqueles que acreditam que Gardner a fabricou totalmente. A primeira crítica é a que afirma que o coven de New Forest seguia o modelo de Witchcraft que Margaret Murray descreveu em seu livro de 1921, The Witch Cult in Europe. A tese de Murray era de que uma religião universal, pré-cristã, baseada em uma Deusa existiu por toda a Europa. Esta idéia foi recebida como ridícula por seus colegas acadêmicos e feriu sua credibilidade como uma respeitada Egiptologista. Hoje, poucos estudiosos consideram que suas interpretações de tais fatos como tendo sido acurados. Entretanto, Murray trouxe a idéia do culto à Deusa, que a Wicca Gardneriana praticava, de volta ao centro das atenções após uma longa ausência.

A Segunda crítica é a de que a “Velha Dorothy” Clutterbuck e o coven de New Forest realmente nunca existiram, exceto na mente de Gardner. Entretanto, Doreen Valentine, que nos idos de 1950 pertenceu ao coven de Gardner (que não era o coven de New Forest), localizou as certidões de nascimento e morte de Dorothy Clutterbuck no início dos anos 80.

Clutterbuck nascera na Índia em 1881 e morrera na Inglaterra em 1951. Ela deixou um montante de 60,000 libras, que mostrou ser razoável para ela ter possuído a grande e antiga casa perto de New Forest onde Gardner disse ter sido iniciado.

Um terceiro desafio é o que afirma que o ocultista Aleister Crowley foi pago por Gardner para escrever seus rituais. Valiente, que é o autor de vários livros sobre bruxaria moderna, é a fonte de vários fatos sobre Gardner. Após unir-se ao coven de Gardner, ela diz ter ajudado-o a escrever ou rescrever alguns de seus rituais originais. A cópia do Livro de Sombras que Valiente primeiramente viu realmente tinha semelhanças com os trabalhos de Aleister Crowley, assim como incluíam uma adaptação do poema de Rudyard Kipling chamado “A Canção da Árvore”. Quando ela confrontou Gardner, ele admitiu ter copiado livremente algum material dos escritos de Aleister Crowley para preencher lacunas nos originais de New Forest. Valiente, entretanto, desmente a acusação de que Aleister Crowley que morreu em 1947, vários anos antes de Witchcraft Today ter sido publicado, tenha escrito os rituais de Gardner.

Valiente acredita ainda que os termos de maçons como “the working tools”, como referência aos candidatos estarem devidamente preparados para a iniciação, assim como o sistema de três graus de iniciações, foi incorporado da ritualística Maçônica por Gardner, que era também Co-Maçom.

A quarta crítica, feita por Isaac Bonewits, é a de que a Wiccan Rede é também de origem moderna. Bonewits é um Druida erudito independente, e crítico de Gardner de longa data. Ele apontou que Crowley escreveu “Do what thou whilt, that is the whole of the Law”, no início do século XX. Esta afirmação é bastante similar à segunda parte da Wiccan Rede “Do as thou whilt” A primeira parte da Wiccan Rede “Na ye harm none”, pode ter sido adicionada por Gardner, Bonewits acredita, para evitar acusações de que a Wicca era uma religião negativa envolvida com maldições.

Nos idos de 1960 e 70, era muito importante para alguns bruxos se era verdade ou não que Gardner havia descoberto um verdadeiro coven sobrevivente, ou se havia criado a religião Wiccan baseado em seus vastos conhecimentos sobre o oculto. É verdade que Gardner gabou-se de seu vasto conhecimento sobre o oculto em Witchcraft Today. Baseado nas críticas feitas por Bonewits, Baker, Kelly e outros, hoje em dia a maioria dos Wiccans aceitam que Gardner adicionou livremente material de outras tradições ocultistas em sua descrição da Wicca.

A Wicca Gardneriana nos proporciona uma mitologia positiva de uma religião pré-cristã que gostaríamos que tivesse sobrevivido. Mas sobre isto não há praticamente nenhuma evidência histórica. O culto à Deusa e ao Deus Cornífero da Natureza em celebrações sazonais e lunares são autenticamente muito antigas/ Apenas os rituais e ferramentas Gardnerianos utilizados por nós são de origem moderna.

Referências:
James W. Baker, "White Witches: Historic Fact and Fantasy," in Magical Religion and Modern Witchcraft, James. R. Lewis, ed., SUNY Press, 1996.
Farrar, Janet and Stewart, A Witches Bible Compleat, Magickal Childe, 1984.
Gardner, Gerald, Witchcraft Today, 1st edition, Ryder and Co, U.K., 1954; this edition, 7th paperback printing, Magickal Childe, 1991.
Guiley, Rosemary Ellen, The Encyclopedia of Witchcraft and Witches, Facts On File, 1989.
Hopeman, Ellen Evert and Lawrence Bond, People of the Earth: the New Pagans Speak Out, Destiny Books, 1996.
McCoy, Edain, In a Graveyard at Midnight, Llewellyn, 1995.
RavenWolf, Silver, HexCraft, Llewellyn, 1995.
Valiente, Doreen, The Rebirth of Witchcraft, Phoenix Publishing, 1989.

Este artigo foi originalmente publicado em Lady Letter, uma publicação de Our Lady of the Woods - coven Wiccan.

Por: Merlyn
Originalmente publicado na revista Connections

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